Por que os casos de miopia vêm crescendo no Brasil? Uma mudança que acompanha novos hábitos

A miopia é uma alteração visual em que a pessoa enxerga bem de perto, mas apresenta dificuldade para visualizar objetos distantes. Isso acontece porque a imagem é focalizada antes da retina. O aumento da miopia não é uma preocupação apenas brasileira: especialistas observam crescimento da condição em diversas partes do mundo, principalmente entre crianças e adolescentes.

No Brasil, entidades médicas também têm chamado atenção para mudanças de comportamento que podem favorecer esse cenário. A miopia é considerada multifatorial: existe influência genética, mas o ambiente e os hábitos adotados durante a infância também têm papel importante no seu desenvolvimento.

Mais tempo olhando para perto

Celulares, tablets e computadores passaram a ocupar uma parcela significativa do cotidiano. Estudar, conversar, assistir a vídeos e se divertir muitas vezes significa passar horas olhando para objetos a poucos centímetros dos olhos. Estudos associam períodos prolongados de atividades de perto a uma maior ocorrência de miopia em crianças.

Isso não significa que o celular seja, isoladamente, o responsável pela miopia. O problema envolve um conjunto de fatores, como quantidade de atividades realizadas de perto, distância utilizada, ausência de pausas, predisposição genética e pouco tempo em ambientes externos. Por isso, simplesmente culpar as telas não explica completamente o crescimento da condição.

As crianças também estão passando menos tempo ao ar livre

Um dos fatores mais importantes estudados atualmente é a exposição à luz natural. Evidências mostram que crianças que passam mais tempo em atividades externas apresentam menor risco de desenvolver miopia. Uma meta-análise publicada em 2024, por exemplo, encontrou associação entre maior tempo ao ar livre e redução do risco de surgimento da condição.

As diretrizes divulgadas pela Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica destacam justamente o aumento do tempo ao ar livre como uma das intervenções comportamentais com evidências mais consistentes para prevenção. A recomendação apresentada no consenso é buscar pelo menos duas horas diárias de exposição à luz natural.

A genética continua tendo um papel importante

Nem todas as crianças submetidas aos mesmos hábitos desenvolverão miopia. Ter pais míopes aumenta a predisposição, mostrando que existe um componente hereditário importante. Entretanto, genética e ambiente não precisam ser vistos como explicações concorrentes: eles podem atuar juntos.

Uma criança geneticamente predisposta pode, portanto, merecer acompanhamento ainda mais cuidadoso. Quando essa predisposição se soma a muitas horas de atividades de perto e pouco tempo em ambientes externos, existem mais fatores associados ao desenvolvimento da miopia.

Por que descobrir cedo é importante?

A miopia pode começar ainda durante a infância e progredir ao longo dos anos de crescimento. Muitas vezes, os primeiros sinais aparecem na escola: dificuldade para enxergar a lousa, necessidade de aproximar-se da televisão, apertar os olhos para enxergar à distância ou reclamar de visão borrada.

O acompanhamento oftalmológico permite identificar a alteração e avaliar sua evolução. Atualmente existem estratégias específicas para controle da progressão da miopia em crianças, e as diretrizes internacionais destacam que diferentes intervenções apresentam evidências de benefício.

Prevenção também passa pela rotina

Incentivar brincadeiras e atividades ao ar livre, estabelecer intervalos durante períodos prolongados de leitura ou uso de dispositivos e evitar que a criança permaneça continuamente olhando muito de perto são hábitos que podem contribuir para uma rotina visual mais saudável. Um estudo prospectivo encontrou efeito protetor associado a maior distância durante atividades próximas, pausas a cada 30 minutos e mais tempo ao ar livre.

O crescimento da miopia mostra como nossos hábitos podem repercutir na saúde dos olhos. Mais do que reduzir telas, é importante buscar equilíbrio: menos períodos prolongados olhando de perto, mais pausas, mais atividades ao ar livre e acompanhamento oftalmológico adequado, especialmente durante a infância e a adolescência.

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